A sabedoria de trilhar o próprio caminho e escrever a própria história

Lu Carvalho cruza influências e vivências para encontrar o tom contemporâneo de seu primeiro CD, O samba que eu sei, gravado com participações de Arlindo Cruz, Diogo Nogueira e de Beth Carvalho, tia da debutante cantora e compositora carioca

O samba é um dom natural de Lu Carvalho, aprimorado pela convivência privilegiada com sua tia, Beth Carvalho, uma das referências no Brasil de samba da melhor qualidade. Mas Lu Carvalho não fica na aba da tia consagrada neste seu primeiro CD, O samba que eu sei. A cantora e compositora carioca teve a sabedoria de trilhar seu próprio caminho para escrever sua própria história, cruzando influências e vivências na busca do tom contemporâneo deste disco produzido por Misael da Hora, filho do craque Rildo Hora. As programações e samplers pilotados com sutileza por Mauro Berman e Misael da Hora em Não me responsabilizo (Alceu Maia e Marcelo Guimarães) são indícios de que Lu Carvalho sabe que é preciso tocar samba com a linguagem de hoje sem abrir mão das percussões e do idioma típico do gênero.

A linguagem é a dos tempos modernos, mas está enraizada nas tradições do samba. O CD O samba que eu sei expõe os traços da história da artista – freqüentadora assídua das rodas e quintais do Rio de Janeiro (RJ) - no repertório quase inteiramente inédito selecionado pela cantora, que pôs os pés na profissão como backing-vocal dos shows e discos de Beth Carvalho. E é por isso – também – que a tia e madrinha artística de Lu figura no CD, cantando com a sobrinha Receita de prazer (Dayse do Banjo, Gerson da Banda e Rogerinho), composição que celebra as qualidades e os poderes do samba, na mesma linha da música que abre o disco, Devotos do samba (Rodrigo Leite e Sérgio Meriti).

A rigor, a história de Lu Carvalho na música começa já no seu nascimento. Filha da também cantora Vânia Carvalho, Lu foi a musa inspiradora – quando ainda estava na barriga de sua mãe - da Cantiga por Luciana, composta por Edmundo Souto e Paulinho Tapajós na crença de que Vânia esperava uma menina que se chamaria Luciana Carvalho. Eram tempos pré-DNA, mas a intuição dos compositores estava certa. Lu veio ao mundo no embalo do sucesso da Cantiga por Luciana no IV Festival Internacional da Canção (FIC), em 1969, na voz da cantora Evinha.

Corta para 1979. Então com dez anos, a menina Lu entra no estúdio e grava participação em Coisinha do pai (Almir Guineto, Jorge Aragão e Luiz Carlos), samba lançado por Beth Carvalho no álbum No pagode (RCA, 1979). O registro seminal dá sentido à faixa-homenagem que encerra O samba que eu sei. Na única regravação do disco, Lu recria Coisinha do pai como um acalanto, recuperando em tons suaves, calmos, o sentido original do samba. A regravação é homenagem tanto ao padrinho Almir Guineto – a quem o disco é dedicado - como à tia Beth Carvalho, responsáveis pelo contato precoce de Lu com o melhor samba produzido nos nobres quintais do Rio.

O convívio privilegiado com os bambas cariocas garantiu a Lu um repertório inédito digno de cantora já conhecida. Arlindo Cruz, por exemplo, figura duplamente como compositor na ficha técnica de O samba que eu sei. Teu sorriso é ouro, parceria de Arlindo com Rogê, é o samba com o balanço dos dias de hoje. Já Ah! Se eu soubesse – assinado por Arlindo com seu velho parceiro Franco – é samba fincado em alguma raiz das tamarineiras do Cacique de Ramos.

Com as raízes que a ligam à história do samba e as antenas ligadas para captar as cadências atuais, Lu Carvalho apresenta um disco equilibrado, com ênfase no samba romântico. “Só sei falar de amor e de alegria”, sentencia a cantora, que também é intuitiva compositora, criadora de melodias e letras sem saber tocar um instrumento. O samba que eu sei apresenta três amostras da obra autoral de Lu Carvalho. Quero mais é viver feliz é exemplo do alto astral que pontua não somente o cancioneiro da lavra da artista, mas todo o disco. Quero ter você reitera a tonalidade romântica do samba de Lu com a presença de Diogo Nogueira, o jovem cantor de samba que conquistou o Brasil e que é amigo de Lu. Detalhe: Diogo é que escolheu a composição de Lu para gravar o dueto. Já Feitiço do amor é parceria de Lu com Leonardo Couto, seu empresário e um dos principais incentivadores da carreira da artista.

O samba que eu sei chega ao mercado em seu próprio tempo, na hora mais certa para Lu Carvalho. Mas a ideia da artista de gravar um disco com suas influências e vivências é mais antiga. Em 2002, a cantora começou a gravar aquele que seria seu primeiro disco. Mas engravidou do filho Rodrigo – hoje com 11 saudáveis anos – e abortou a ideia do CD, cujo único resquício é o já citado samba Não me responsabilizo (Alceu Maia e Marcelo Guimarães). E assim se passaram dez anos, como diz o título do bolero. Nessa década, Lu trabalhou como publicitária – trabalho que exerceu de 1997 a 2007 – e, depois, abriu loja de roupas (hoje fechada para dar passagem ao samba). A música entrou profissionalmente na vida da cantora novamente em 2 de agosto de 2011, data em que Lu fez show na casa carioca Bom Sujeito para comemorar seu aniversário.

Entusiasmada com a receptividade do show, Lu começou a compor. Fez mais de 20 músicas em cerca de três meses. E foi à luta para realizar o sonho de gravar enfim o primeiro disco, concretizado a partir de seu encontro com Misael da Hora, produtor e arranjador de O samba que eu sei. “Misael tem a minha linguagem, entende a minha obra. Sou uma mulher moderna que gosta de samba romântico”, ressalta a artista, em autodefinição que explica por si só o conceito do disco.

Decidida a fazer o CD, Lu Carvalho ligou pessoalmente para compositores como Serginho Meriti, que lhe forneceu sambas como A linha fina (Rodrigo Leite e Serginho Meriti), exaltação à mulher contemporânea. E assim, de contato em contato, a cantora recolheu sambas como o belo Volta, da lavra de Gustavo Clarão, presidente da escola de samba Unidos do Viradouro. Também com jeito de hit, Coração levado (Toninho Geraes e Paulinho Rezende) traz a assinatura de Toninho Geraes, parceiro de Paulinho Rezende neste samba que reitera a vocação para a felicidade do disco O samba que eu sei.

Baiano no ninho carioca/fluminense dos músicos e compositores do disco, mas não estranho porque já habituado a ser gravado por bambas como Zeca Pagodinho, Nelson Rufino contribui com Voa no pensamento. Por fim, Xô, saudade! tem a assinatura de Noca da Portela, parceiro de Toninho Nascimento e de Tranka neste samba de tom dolente que, mesmo assim, recusa o sofrimento provocado pela saudade, em sintonia com o espírito alegre do disco.

A abordagem intimista de Coisinha do pai no fim do CD expõe a suavidade do canto de Lu Carvalho. Embora descenda de família naturalmente afinada, Lu Carvalho fez aulas de canto com Eveline Hecker e, mais tarde, treinou a voz com Felipe Abreu antes de registrar para a posteridade os 14 sambas que compõem o repertório de O samba que eu sei.

No seu tempo, o samba de Lu Carvalho está nas ruas, como um mix de influências e vivências da cantora e compositora. E com a sabedoria de que cada um tem que fazer a sua própria história e o seu próprio caminho.

Mauro Ferreira
Abril de 2013